Crítica - Avatar (11.01.10)

De acordo com algumas religiões, a vida na Terra é uma escola e nela devemos aprender com o intuito de crescermos espiritualmente. No momento em que adquirimos toda a experiência necessária em uma única vida, seja ela para corrigirmos algum erro passado ou para simplesmente ajudar alguém muito próximo, nós deixamos o corpo físico e voltamos para casa. Simplesmente morremos e vamos para o “Céu”. Entretanto, enquanto estivermos no planeta, segundo estas religiões, só conseguiremos engrandecer o espírito se cultivarmos o amor. É através dele que manteremos a Paz, aumentaremos o nível intelectual e enfrentaremos positivamente todos os desafios terrestres. Com amor não há medo, não há julgamento e não há pobreza. Manifestando-o diariamente, os Humanos estariam mais próximos da energia chamada “Deus”, e com facilidade ajudariam seus semelhantes a alcançarem seus objetivos.

Infelizmente, por razões incompreensíveis e limitadas do cérebro humano, nunca haverá cem por cento de acerto e, como toda teoria, na prática é que realmente vemos quem somos e aonde chegaremos. E essa prática milenar está muito distante daquela ideal para se viver em conjunto. Aliás, os fatores que levam a sociedade a se manter em colapso são tão complexos que não cabe a mim sequer tentar explicá-los. Resumidamente, nos dá prazer julgar, cometer pecados terrenos, idolatrar seres e coisas materiais, ao mesmo tempo em que arranjamos uma desculpa racional por todo e qualquer problema que não tentamos evitar. De fato, todo esse processo escatológico presente nos torna cobaias num jogo recheado de tentações, a fim de testar nossa divindade e a capacidade de escolhermos os caminhos corretos.

Apresentando um novo conceito religioso, AVATAR nos mostra exatamente o nível em que estamos e como toda e qualquer novidade é vista como ameaça. James Cameron, o diretor do inesquecível Titanic, levou cerca de 10 anos para concluir tal proeza e criou detalhadamente um novo mundo dentro do mundo, antes restrito apenas aos Seres Humanos. E esse novo mundo, Pandora, é estranhamente parecido com o mundo espiritual relatado até então. Todos os seres, desde os inanimados até os racionais, são interligados; todos compartilham sentimentos; toda a energia deste lugar é única e mantém o mundo colorido e vivo e sua fonte de energia (uma energia infindável, incandescente, incrivelmente brilhante) provém da “Árvore da Vida”, árvore esta que mantém literalmente acesa toda a natureza ao seu redor.

Mas não pense que esse local é desprovido de injustiças. Os seres nele habitados, conhecidos como Na´Vis, por mais unidos que sejam, têm características semelhantes às nossas, tanto na aparência física como mental. Apesar de trabalharem o amor a terra com exclusividade, são grandes guerreiros (a maneira com que vivem se equipara à indígena em muitos aspectos) e sentimentos negativos como raiva, desprezo, avareza, ironia, prepotência e medo ainda fazem parte de sua vida, porém, em quantidades inferiores; quantidades que só se elevarão quando tiverem que defender seu mundo, mesmo que for necessário morrer para que o ciclo mantenha-se equilibrado.

É exatamente isso que o filme descreve desde o início, quando os humanos descobrem e tentam de todas as formas entrarem neste lugar abençoado, apenas com o intuito da riqueza material a ser adquirida. Para isto e para conhecerem sua história, uma Doutora inicia um projeto que cria avatares (um segundo corpo, com a feição e o físico dos seres azuis) controlados através da mente, conseguindo assim infiltrar-se em Pandora, tendo a receptividade e o afeto dos habitantes. Jake Sully (Sam Woethington, de “Exterminador do Futuro 4”) é o escolhido para substituir seu irmão morto, neste projeto, e é julgado incompetente pelos seus colegas de trabalho, por não ter tido qualquer envolvimento anterior e pelo fato de ser paraplégico. Ao ativar seu avatar, observamos o quão livre e feliz ele se sente, pois apesar da aparência felina e gigantesca, ele pôde voltar a andar.

Ao entrar em Pandora e ser aceito novamente, Sully conhece Neytiri, responsável por ensiná-lo a conviver harmoniosamente, a sentir as vibrações, a vida em cada pequeno ser, a aprender seus truques, suas formas de locomoção, de caça e de defesa e ao valor agregado à Mãe Natureza, deixando claro que ela é a razão suprema da existência. Mesmo sabendo que precisa descobrir qual é a fonte principal da riqueza dos Na´Vi, Sully percebe que os momentos permanecidos ali são tão intensos e tão benéficos que o fazem se apaixonar pelo lugar e por Neytiri, passando maior tempo no novo mundo do que no claustrofóbico mundo real.

Em seu ápice, somos beneficiados com a impressionante tecnologia que James Cameron insistiu ser revolucionária durante todos estes anos. E é. Depois de meia hora de filme, esquecemos que os Na´Vi são seres totalmente gerados por computador e, diferente de filmes que tentaram impressionar, como os bonecos de “Final Fantasy”, este apresenta movimentos e gestos faciais extremamente reais. Porém como nenhuma história tem sua perfeição, as atitudes tomadas pelo personagem Sully e seu envolvimento com os outros seres acabam por chamar a atenção do confuso e ambíguo líder Selfridge e do ganancioso Coronel Quaritch, que vêem Jake Sully como uma ameaça à extinção do projeto valioso, que futuramente os deixariam milionários. Pronto! Isto basta para que haja destruição mais do que o suficiente, mérito que seres humanos têm em abundância. Junte a isso grandes cenas de ação, uma pitada de romance e uma análise profunda de nossos atos na Terra e têm-se um filme bilionário, que até o presente momento só não conseguiu bater o recorde de Titanic, outra obra-prima do diretor.

Se a intenção de Cameron era impressionar e ser futurista, certamente acertou. É óbvio que Avatar também tem algumas falhas ou poderia ser melhor em alguns aspectos, mas não haveria nexo comentar algo tão mesquinho diante de tanto deslumbre. E como toda e qualquer manifestação que chame a atenção, milhares de críticas e campanhas contra o filme foram divulgadas, acusando-o de manipular o espectador com menções políticas e religiosas, como se as pessoas não tivessem opinião própria ou não soubessem diferenciar os fatos (isso nos faz lembrar outro polêmico lançamento, “O Código Da Vinci”, banido pela Igreja). Aliás, toda polêmica só nos faz toda vez experimentar uma única certeza divina: a de que o Ser Humano é o único Ser com o dom de julgar, humilhar e menosprezar seu semelhante, muito diferente daquela teoria de amor, paz e harmonia, supostamente benéfica à alma. Afinal, pra que fazermos só o bem se temos o poder do capital nas mãos, que vence tudo e todos, não é mesmo?

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