
Sucesso é algo questionável. Nunca se sabe com exatidão de onde ele vem, mas os benefícios por ele apresentados geralmente vêm em saldo positivo. Se algo com ele se tornar negativo, é devidamente culpa daquele que o executou, irresponsavelmente ou com pouca precisão. O que nos cabe decifrar é: sucesso é sinônimo de sorte? Riqueza? Manipulação? Suor? Ousadia? Apenas coincidência? Ou a união literalmente faz a força?
O Mercado de trabalho é gigantesco, pessoas e mais pessoas crescem, a mídia infesta a mente dessas mesmas pessoas com frases impactantes, fazendo-as darem o melhor de si e exigindo que elas alcancem o sucesso, o reconhecimento popular, nacional e mundial. Se não nos adequarmos, seremos demitidos desta gigante indústria humanóide. Honre seu nome, seu histórico familiar, dê o sangue por seus pais, seja o orgulho da casa, ultrapasse seus limites, ultrapasse seus inimigos, faça o que for para chegar ao topo, humilhe, manipule, minta, ejacule seus ideais, num gozo alucinante de prazer e ódio, criando novas formas de aliança. Não tenha dó, o que a sociedade quer é que você olhe no espelho e pense: “Eu tenho o Reino dos Céus sobre minhas mãos”. Lute, humilhe e siga lutando. E depois que estiver pronto, padeça.
O leitor talvez questione tais atitudes citadas acima, mas… Não é isso que você está vivendo ou presenciando em seu cotidiano? E aqueles que não fazem parte deste mundo, o que fazem? Aliás, estes seres, que também buscam sucesso profissional ou pessoal, mas de forma justa e honesta, têm alguma chance em meio à famigerada Globalização?
É aqui que podemos dar destaque à história de “Apenas Uma Vez”. Desde o início do filme, observamos que ele possui alma (leia-se dedicação): o personagem, o músico retratado pelo cantor até então amador Glen Hansard, nos deixa alucinados com sua voz e com suas canções e mostra a todos que, com apenas algumas cordas de um violão unidas harmonicamente com suas cordas vocais, é possível mexer com todos os sentimentos de uma platéia imensa. No filme, Glen é um cantor que busca sucesso, dinheiro e pessoas para a formação de uma banda, podendo assim gravar um futuro álbum. Como força do destino, encontra, em meio aos sons e ruídos das ruas da cidade, a jovem estudante Markéta Inglova, ambulante, que se encanta com suas composições. Ao longo dos dias, e habilidades trocadas, eles veem o quanto inseparáveis estão se tornando e, enquanto cumprem suas tarefas diárias, conseguem tornar o sonho de mostrar a cara ao mundo bem mais próximo, apesar de distante. E é com a ajuda de amigos que chegam a gravar canções num Estúdio da cidade, impressionando conhecidos e parentes.
Ganhador de diversos prêmios, incluindo o Oscar de “Melhor Canção Original”, Apenas Uma Vez conta uma simples história, porém com algo a mais, emocionante por suas belas músicas e belos intérpretes, exibindo cenas que dão ênfase à realidade, até mesmo naquelas em que a dupla canta uma música pela primeira vez (Glen e Markéta convencem ao treinarem, tocarem e cantarem a premiada “Falling Slowly” uma única vez, sem interrupções, sem demonstrar que algo já havia sido ensaiado).
Diferente do sucesso que conhecemos, “Apenas Uma Vez” mostra que não é necessário chegar ao topo para que possamos sentir prazer e satisfação no que fazemos e, sutilmente, quer mostrar que com persistência, humildade, paciência e muito sorriso no rosto seguimos, numa luta interminável, num processo lento, num teste, em que analisa-se nosso perfil e nossas escolhas, que definirão nossa sorte e nossa recompensa. Apologias à parte e sem o intuito de um final completo (afinal, nossa trajetória não tem fim), “Apenas Uma Vez” representa a leva de filmes fora do padrão hollywoodiano, diferente, tocante e inovador, com a certeza de ser visto, principalmente ouvido, não somente apenas uma vez.

