
A Fé sempre foi algo perturbador. É interessante a forma como ela é entendida e analisada, transformando-a em motivos para agirmos teatralmente como os bons ou os maus da história.
Mesmo sabendo que qualquer ato não justifique causas ou conseqüências, as pessoas insistem em defender e dissipar suas religiões, obrigando os esperançosos a acreditarem no que querem. Se o resultado não for positivo, inicia-se a carnificina. O fato de vivermos num mundo “democrático” nos aprisiona de tal forma que mesmo que não queiramos guerra, acabamos por participar, defendendo-nos dos ataques orais ou físicos, de um povo que exige em sermos como o que Deus supostamente lhes ordenou. Se o Deus humano for renegado, seus servos têm o livre acesso para aniquilar os seres de sua própria raça, malditos e pecadores, que teimam em se discernir e seguir seus ideais.
Camino, filme que o direto Javier Fesser presta uma homenagem, retrata a curta vida e a longa morte de Alexia Gonzáles-Barros, aqui nomeada como CAMINO, garota de 14 anos que, no início da juventude, vive um grande e oposto dilema: o início de seu primeiro amor e o início de uma trágica doença. Vítima de um tumor maligno, a garota (vivida pela linda Nerea Camacho), se apaixona pelo colega de classe, chamado Jesus e, para estar ao seu lado e para impressioná-lo, tem o grande desejo de participar de uma peça de teatro, reconstituição da história de Cinderela, da versão Disney, desejo este que acaba no momento em que as dificuldades de andar e respirar aumentam. A vontade de Camino voltar a viver é tanto que, continuamente ela tem sonhos com seu Anjo da Guarda e com o garoto Jesus, o que faz sua mãe, religiosa fervorosa, acreditar que a Trindade está pronta para recebê-la ao Reino do Céu, motivo este que faz todos os padres e a Igreja estarem ao lado da mãe, incentivando-a a oferecer a filha aos deuses, para que se torne Santa.
Javier, com roteiro extremamente bem amarrado, conta os dois lados da história, destacando o modo como Camino pensa, com sua infância e a fé em se recuperar, para se apresentar no teatro e poder ter o amor de Jesus; e o modo crítico da Opus Dei e da Igreja Católica, que vê a sua morte e delírios como meio de divulgação de sua religião, glorificando e sacrificando os humanos, numa demonstração de riqueza e poder perante o planeta. E cenas memoráveis e inteligentes, como as que Camino fala dormindo, num profundo sonho em que abraça e dança com o garoto Jesus, ao mesmo tempo em que sua mãe interpreta isso como uma dica para a morte e o recebimento da filha pelo Todo Poderoso, nos faz entender o porquê de um filme espanhol deste ter ganhado 6 estatuetas Goya, um dos mais importantes prêmios espanhóis.
Envolvente, contagiante e realmente triste, Camino nos deixa um pouco perturbados, pois toca numa ferida que está longe de cicatrizar e que, se entrar em discussão, poderá fazer com que a sociedade entre em colapso, numa incessante e ininterrupta guerra de ideais, em que pessoas tentam lutar física ou oralmente, convencendo-se de que sua religião é única e que, se alguém negar segui-la, queimará nos primórdios infernais, fugindo da possibilidade de tornar-se santo como Camino, algo este que ela mesma nunca havia desejado ser.
Obs: Camino ainda não tem data de estréia no Brasil, mas já faz sucesso na Internet, e com legenda!

