
A mente humana é inquietante. Graças a ela vivemos num mundo amplo de tecnologia e inovação. O planeta cresce, novas formas de vida surgem e tudo o que era teoria vai se tornando palpável. Ou quase tudo.
Uma das teorias mais curiosas que o Homem busca por respostas há anos é sobre a troca de corpos. Sejam elas espirituais ou carnais, sob possessões ou cirurgias cerebrais, a sociedade científica ou médica sempre teve interesse em relação ao termo “E Se…”: e se fosse possível substituir as mentes humanas, o que faríamos? E se fosse possível ser outra pessoa, um ídolo, um arqueólogo, um presidente? Como reagiríamos, o que poderíamos conhecer, o quanto de aprendizado adquiriríamos? E se fosse possível a troca de sexo integral, estaríamos satisfeitos?
Toda esta teoria e explicações corriqueiras para o encontro de uma solução, distante até então, deixa essa sociedade abismada. Entender, desejar e calcular milimetricamente todas as opções de algo que não se pode executar é intrigante.
Entretanto, o mundo cinematográfico é o mundo perfeito para imaginações e, enquanto nenhuma experiência de sucesso é exibida nas fervorosas e estereotipadas comunicações em massa, podemos analisar constantemente algumas obras que tratam do assunto. Desde a década de 30 vemos filmes como Frankenstein, A Ilha do Dr. Moreau, Do que as Mulheres Gostam, Sexta-Feira Muito Louca, A Chave Mestra, entre outros, retratarem o tema, todos a seu modo e de acordo com o que querem representar. O Brasil não poderia ficar ausente.
Depois do elogiado roteiro de A Dona da História, em que uma mulher de 55 anos (Marieta Severo) se encontra com ela mesma, jovem (Débora Falabella) e toma atitudes diferentes na época, mudando o rumo de sua vida – voltando novamente à teoria do “E Se…” – fomos presenteados em 2006 com uma das melhores comédias brasileiras da atualidade: Se Eu Fosse Você. Timidamente, sem fazer barulho, a comédia estrelada pelos excepcionais Tony Ramos e Gloria Pires chegou aos cinemas e em pouquíssimo tempo fez um estrondo inimaginável. Situações corriqueiras, estas em que todos se identificam, tornam-se cômicas quando trocadas por homens e mulheres. E observar o cotidiano de duas pessoas, que têm a “alma” trocada, é hilário. O sucesso foi tanto que, em 2009, ganhamos mais uma parte, algo inédito feito com filmes nacionais, pois nenhum até então (exceto os infantis e filmes-séries) havia tido uma continuação.
Elaborado com cuidado e sem se preocupar com atribuições “blockbusterianas”, o diretor Daniel Filho acerta mais uma vez, calando a todos aqueles que pensam que as continuações tendem a estragar a obra original. Igual ou superior ao primeiro, o pretexto para a troca de corpos agora é relacionada às degradações ambientais (leia-se Aquecimento Global) provocadas pelos humanos, propensos a receber “dois raios num mesmo local”. Perto da separação, Cláudio (Tony Ramos, excelente) e Helena (Glória Pires, interpretando sua masculinidade muito melhor do que na primeira versão) enfrentam alguns problemas inseparáveis: a vida familiar e a vida profissional. A ausência conjugal fica estressante para ambos, que buscam solução no divórcio. Após brigas e repetição das mesmas palavras, têm o corpo trocado novamente e a experiência anterior faz com que fiquem ainda mais desesperados por terem que reviver tal situação. Enquanto isso, a filha do casal vive uma nova experiência: a de estar grávida e não estar preparada para compartilhar suas emoções e adaptações para um rápido amadurecimento.
Com roteiro enxuto e objetivo, Daniel Filho optou por focar cada personagem na maneira de lidar com um novo corpo e com a nova vida de solteiro, mostrando que mesmo após ininterruptas discussões, ambos não conseguem deixar de se preocupar com a família. Acontecimentos contrários às atitudes de cada um, incluindo a saia justa de ter que conhecerem os pais do futuro genro, e cenas em que Cláudio e Helena têm de dançar e jogar futebol (cena esta em que vemos a evolução da computação gráfica no Brasil), são apenas aperitivos para um filme repleto de diversão e de belas atuações.
Perdendo o encanto apenas para participações não importantes (como a de Adriane Galisteu, simpática, porém não convincente) e para propagandas dos patrocinadores em diversos cenários (modestas, mas inúteis), Se Eu Fosse Você 2 – com continuação já marcada – prova que o país está melhorando a cada ano e é digno de filmes maravilhosos que não retratam apenas a vida sofrida da periferia (Última Parada 174, Carandiru, Cidade de Deus), e que para se fazer uma ótima comédia não é necessário recorrer à táticas hollywoodianas. Manter a mente humana inquieta e ávida para novas conquistas é tudo o que se precisa.

