
Todo ufólogo que se preze jamais entenderia se seres extraterrestres lutassem entre si, causando a discórdia entre espécies. Para eles, uma mesma espécie racional deve ser unida, lutando sim, pela sobrevivência, porém unidos. Quando observamos outra e qualquer forma de vida, com um olhar subjetivo, não há como entender um motivo findável para tanta guerra. A luta pela sobrevivência, neste contexto, é compreensível desde que seja utilizado para atender às necessidades básicas de um indivíduo. Entretanto, para os complicados e complexos seres humanos, estas necessidades acabam por se tornarem um tanto fúteis, motivos mínimos para que se inicie o caos da humanidade.
E algo que conforta muito as pessoas é a arte de julgar outras pessoas. Para elas, não há nada melhor do que apontar as conseqüências alheias, sem precisar ou querer entender sua causa; analisar e criticar o “irmão próximo”, comparando-o negativamente em relação ao seu superego, é algo reconfortante. E a real história transformada em segundo filme (há um filme-documentário, lançado na época) do famoso ônibus 174 mostra muito bem isto.
Explicando com detalhes todos os motivos que levaram à tal tragédia, o arrogante diretor Bruno Barreto permite ao telespectador voltar ao ano de 1983, durante o nascimento de dois garotos, Alessandro e Sandro (posteriormente conhecido como Ale, o protagonista do filme), relatando separadamente a infância de cada um: Alessandro, após ser tirado à força da mãe, viciada e endividada, é criado pelo tio da maneira mais comum exercida na favela – aprende a atirar, a não confiar em ninguém e a cultivar um ódio desnecessário à qualquer pessoa que atrapalhe seu caminho. Sandro (Ale), garoto inocente e receoso, perturba-se ao presenciar a morte violenta da mãe e passa a morar na casa da tia, mas vai embora brevemente, ao perceber que não é bem-vindo pelo tio.
Ao longo de sua nova jornada, abençoados por Cristo na Cidade Maravilhosa (a cena em que uma criança caçoa da bênção recebida em plena luz do dia chega a ser hilária), ambos os Ales se conhecem, sob jura de morte devido à dívidas, e mais tarde, na cadeia, se entendem, já que, mesmo vivendo de uma forma contrária a todas as regras da sociedade, ainda conseguem enxergar cumplicidade e companheirismo. Enquanto isso, a mãe de Alessandro, ex-viciada e recém convertida religiosamente, procura por seu filho perdido, fato que a leva até Sandro, que interessado em melhorar sua moradia, usufrui de sua bondade, fazendo-se passar pelo filho sumido. A convivência nas ruas faz a nova mãe perceber a agressividade de Ale, o que a afasta de seu marido-pastor (que prefere dar importância às bênçãos de capitais recebidas por sua Igreja), não obstante ao amor incondicional que ela tem a oferecer, independente dos defeitos de seu filho.
Após apresentar, sob forte tensão e com detalhes, a trajetória de fracassos e influências negativas de um garoto que poderia ter sido excepcional, mas chega ao seu extremo devido a uma desilusão amorosa, transformando sua mente refém de pensamento único, o diretor nos presenteia com as cenas finais, as únicas da qual os brasileiros conheciam, vividas dentro do inesquecível número 174. Ajudando com o término da operação, somos surpreendidos por um personagem de outro sucesso brasileiro, um dos capitães do filme Tropa de Elite, Matias, sedentário na tela, que procura acalmar o rapaz (para quem não sabe, Tropa de Elite só ganhou vida devido ao documentário Ônibus 174, que tem o BOPE como tema principal).
Mesclando cenas reais com cenas propositalmente feitas com qualidade inferior, equivalente a câmeras domésticas, o telespectador se torna um dos passageiros do ônibus e sente a angústia que paira no ar, aflito para a conclusão final. Conclusão esta que Bruno Barreto vangloriou-se dizendo que todo brasileiro não imaginava até agora, sem notar que tal modificação poderia afetar a verdadeira história, favorecendo as peripécias (já apresentadas) da polícia nacional. A sinceridade às vezes é o melhor caminho para que uma raça encontre harmonia constante, fato que talvez só possamos presenciar algum dia, em outros planetas.

